Uma das coisas que mais vejo em consulta, e que também reconheço facilmente em mim, é esta sensação de estarmos sempre a dever alguma coisa à nossa própria vida. A ideia de que já devíamos estar mais próximas de uma versão de nós que parece sempre estar um pouco mais à frente.
Esta sensação aparece muitas vezes de forma discreta. Nem sempre vem como sofrimento evidente, nem como uma grande queixa. Às vezes surge num desabafo quase dito em piloto automático: “sim, eu sei que devia fazer melhor.” Mas esta frase, para mim, é de facto importante. Porque sinto que, na maioria das vezes, não vem de uma mulher desinteressada ou sem consciência sobre a sua saúde. Vem de mulheres muito atentas, informadas, responsáveis, que já leram, já tentaram, já fizeram mudanças, já começaram várias vezes e, mesmo assim, continuam com a sensação de que estão sempre a falhar em algum ponto.
Esta ideia ficou ainda mais clara para mim ao ler o livro Mulheres que se exigem demasiado, da Júlia Martí. Se ainda não leste, aconselho vivamente. Há um conceito que ela usa e que me ficou muito presente: a ambiguidade. No fundo, ela fala daquela culpa que nasce quando tentamos alcançar um nível de excelência que nunca definimos bem. Queremos ser mais disciplinadas, mais produtivas, mais equilibradas, mais saudáveis e “mais tudo”, mas raramente paramos para perceber que nível é esse, de onde vem, se foi escolhido por nós ou se faz sentido para a vida que temos neste momento.
Quando li esta ideia, fez-me muito sentido porque senti que dava nome a algo transversal a todas nós. E, de facto, muitas mulheres chegam até mim com uma lista enorme de coisas que acham que já deviam estar a fazer. Deviam treinar mais vezes por semana, preparar todas as refeições, beber mais água, dormir cedo, comer mais proteína, comer menos açúcar, organizar melhor os horários, controlar a fome emocional, ter menos desejos, gerir melhor o stress, não se irritar tanto antes da menstruação, ter mais energia ao fim do dia e, ainda, conseguir manter tudo isto com naturalidade.
O problema é que, muitas vezes, essa lista tem duas armadilhas. A primeira é ser demasiado abstrata. Passamos a vida a correr atrás de um “mais” que não tem rosto, forma ou definição concreta. E, por isso, nunca sabemos se chegámos a esse ponto. Nunca sabemos se alcançámos esse estado melhor, essa versão melhor de nós, porque não sabemos, efetivamente, qual é. Como seria essa mulher ideal dentro dos nossos gostos, dos nossos valores e da nossa essência? Esta é a pergunta que precisa de resposta antes de tudo o resto.
A segunda é que essa lista não tem sequer uma hierarquia. Tudo parece igualmente importante, tudo parece urgente e tudo parece sinal de falha quando não é cumprido. E, neste ponto, a mulher já não está apenas a tentar cuidar melhor de si. Está, sim, a tentar responder a uma acumulação de expectativas que foi juntando ao longo do tempo, entre informação de saúde, redes sociais, comparações, experiências anteriores, conselhos de outras pessoas e uma ideia muito exigente do que deveria ser uma mulher saudável e funcional. E, quando tudo tem o mesmo peso, fica muito difícil saber por onde começar.
Isto é particularmente relevante em nutrição e saúde feminina, porque hoje há muita informação disponível, o que é bastante positivo, claro. A informação pode dar autonomia, pode ajudar uma mulher a reconhecer sinais do corpo e pode aproximá-la de decisões mais conscientes. Mas também vejo o outro lado: mulheres que chegam à consulta cheias de informação e com pouca clareza. Sabem o que “se deve fazer”, mas já não sabem bem o que “precisam” de fazer. Pode parecer igual à primeira vista, mas não é.
Por exemplo, uma mulher pode saber que o treino de força é importante, mas isso não significa que o seu ponto de partida seja tentar treinar cinco vezes por semana. Pode saber que uma alimentação com mais proteína ajuda na saciedade, na composição corporal e na estabilidade da energia, mas isso não significa que precise de transformar cada refeição num cálculo rígido. Pode saber que dormir melhor é fundamental, mas se a vida familiar, o trabalho ou a ansiedade estão a interferir com o sono, talvez o primeiro passo não seja exigir uma rotina perfeita, mas perceber o que é possível ajustar com consistência. Pode saber que o stress tem impacto no corpo, mas dizer a uma mulher cansada que tem de “gerir melhor o stress” sem lhe dar uma base concreta pode ser apenas mais uma forma de aumentar a pressão.
É por isso que gosto cada vez mais de trabalhar a ideia de ter “pilares” na saúde feminina. Isto é, o conjunto de mínimos que permite que a mulher deixe de viver em modo de recomeço permanente e comece a criar continuidade. Para algumas mulheres, a base começa por fazer refeições suficientes ao longo do dia, porque passam demasiadas horas sem comer e chegam ao fim da tarde com fome intensa, irritabilidade e vontade de compensar. Para outras, começa por organizar dois ou três pequenos-almoços possíveis, porque a manhã é sempre caótica e isso condiciona o resto do dia. Para outras, passa por voltar a caminhar, fazer dois treinos de força por semana, simplificar jantares, reduzir decisões alimentares ou proteger melhor o sono em dias úteis.
Quando esta base existe, as pequenas conquistas começam a ter outro valor. A mulher deixa de olhar apenas para aquilo que ainda não conseguiu fazer e começa a reconhecer o que já está a sustentar a sua rotina. Muitas vezes, é esta repetição simples e possível que cria mais resultado do que uma tentativa quase obsessiva de cumprir tudo durante apenas alguns dias ou semanas.
Também há outro ponto importante: estabelecer uma base ajuda-nos a largar o que não é controlável. E isto é essencial, porque há muitas mulheres que gastam imensa energia a tentar fazer tudo bem, em todas as áreas, ao mesmo tempo. Só que há sempre coisas que escapam ao plano. Há semanas mais exigentes, ciclos mais difíceis, noites piores, fases de maior carga mental, imprevistos e momentos em que a vida simplesmente não acompanha a nossa lista de tarefas.
Na consulta, este é muitas vezes o ponto de partida, ou seja, perceber que a dificuldade nem sempre está na falta de disciplina, mas na ausência de uma estratégia clara, possível e ajustada à vida real daquela mulher.
Por isso, antes de tentares fazer tudo, talvez precises de saber o que é realmente importante para ti, agora. Não para a versão ideal que criaste na tua cabeça, nem para a mulher que viste nas redes sociais, nem para aquilo que achas que uma mulher saudável deveria conseguir fazer sem esforço. Talvez seja esse o primeiro passo: definir os mínimos que te sustentam, perceber que escolhas dependem realmente de ti e reconhecer que algumas exigências já não precisam de ocupar tanto espaço. De forma simples, escolhe onde colocas a tua energia para que possas evoluir com mais leveza e deixa ir, sem culpa, tudo o que não é prioritário nesta fase.



