Quando comecei a pensar mais seriamente em criar este blog, achei que talvez não fizesse muito sentido fazê-lo numa altura em que nos habituámos a consumir quase tudo em vídeos de poucos segundos. Mas, à medida que criava conteúdos para as redes sociais, a resposta foi-se tornando mais clara. Tentar encaixar a complexidade da saúde feminina numa única mensagem e explicá-la em poucos segundos obriga-me quase sempre a deixar de fora partes do tema que considero importantes. Na ciência, e sobretudo na saúde da mulher, quase nada é totalmente preto ou branco. Entre estes dois extremos, existe uma escala inteira de cinzentos que precisa de ser tornada visível, explicada e trazida para a discussão. Foi então que percebi que precisava de um lugar onde não me quebrassem o raciocínio nem me pusessem um cronómetro naquilo que tenho para dizer.
Há também uma razão mais pessoal. Escrever é uma das formas que tenho de organizar aquilo que penso. Muitas vezes, só quando começo a desenvolver uma ideia consigo perceber porque é que ela me ficou na cabeça, como se relaciona com outras coisas que tenho lido ou porque me faz lembrar situações que se repetem em consulta. Sempre gostei de observar, de questionar e de tentar perceber o que existe para além da resposta mais imediata. Naturalmente, isso também influencia a forma como trabalho e como comunico.
E há cada vez mais sobre o que escrever. Felizmente, nos últimos anos, houve um enorme crescimento da investigação em saúde feminina. Depois de tantos anos em que o corpo da mulher recebeu pouca atenção, temos hoje acesso a mais estudos, mais dados e mais conhecimento sobre temas que antes eram pouco valorizados. A produção científica tem crescido a um ritmo difícil de acompanhar e, por vezes, quase parece chegar em forma de avalanche.
Por um lado, enquanto profissionais, temos mais informação e melhores ferramentas para compreender a saúde das mulheres. Por outro, continua a existir uma discrepância entre aquilo que é produzido no meio académico e aquilo que chega às mulheres através dos meios de comunicação, das redes sociais e dos chamados “influencers”. É ao longo deste percurso que a informação pode ser distorcida. Uma investigação séria e complexa pode acabar reduzida a um título chamativo, criado para captar a atenção, e transformada numa verdade absoluta, já sem as circunstâncias em que surgiu, alimentando uma polarização do conhecimento: aversão completa a uma ideia ou adesão quase cega a outra.
E não nos podemos esquecer também dos mitos e das crenças que nada têm a ver com a ciência, mas sim com problemas estruturais da sociedade: ideias herdadas, repetidas de boca em boca e transformadas em convenções sobre a saúde feminina e sobre o que é ser mulher. Muitas vezes, a única coisa que fazem é deixar mulheres no escuro, frustradas e afastadas da ajuda que poderia evitar anos de desconforto. Isto é mais flagrante quando se fala em saúde menstrual, mas também em relação à fertilidade, à maternidade e à menopausa, por exemplo.
Talvez por isso, em consulta, encontre mulheres cada vez mais informadas e, ao mesmo tempo, mais confusas. Já leram muito, ouviram vários profissionais, guardaram inúmeras publicações nas redes sociais, conhecem inúmeros suplementos, fizeram vários exames e experimentaram diferentes protocolos. Ainda assim, continuam naquele impasse entre aquilo que supostamente deveriam fazer porque outros lhe dizem que é o "certo" e aquilo que realmente faz sentido para si e o que necessita.
Quero escrever a pensar nessas mulheres e nas perguntas que me chegam através das consultas, das publicações, dos artigos que leio ou dos livros que me fazem pensar. Neste espaço, posso pegar em toda essa informação, dar-lhe o tempo que não cabe num vídeo curto e explorar o que pode significar, na prática, para nós, mulheres.
No fundo, quero que este blog seja um veículo para aproximar a ciência da vida real, sem perder o rigor, mas comunicando-a de uma forma mais humana. Quero questionar crenças que fomos interiorizando e transmitindo de geração em geração, desmontar mitos que persistem até hoje e refletir sobre a forma como a nutrição se cruza com tudo aquilo que atravessa o universo feminino.
Assim, haverá espaço para textos mais clínicos e para outros mais reflexivos. Até porque, por trás da nutricionista, existe uma mulher como tu, atenta ao que acontece à sua volta e que gosta de ler nas entrelinhas. Este blog será, por isso, um reflexo da minha voz, das minhas inquietações e do meu olhar, mais cru e autêntico, sobre aquilo que nos rodeia.
É isso que quero construir aqui. Acompanhas-me?


