Helena Ferreira
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Saúde Menstrual

Endometriose e intestino: qual é o papel da microbiota?

Endometriose e intestino: qual é o papel da microbiota?

A esta altura, já não é novidade para ninguém que o intestino tem um papel importante na saúde. Naturalmente, a saúde da mulher não é exceção.


Em maio de 2026, Nemeti et al. publicaram, na revista International Journal of Molecular Sciences, uma revisão sobre um tema que tem despertado interesse crescente na investigação científica: a ligação entre a microbiota intestinal e a endometriose.


A endometriose é uma doença inflamatória crónica, dependente de estrogénios, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Estima-se que afete cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Apesar da sua frequência e do impacto que pode ter na qualidade de vida, os mecanismos envolvidos no seu desenvolvimento e progressão ainda não são totalmente compreendidos.


Na revisão, os autores exploram aquilo a que chamam “eixo microbiota-endometriose” e analisam de que forma os microrganismos que vivem no intestino poderão influenciar três pontos centrais nesta doença: o sistema imunitário, a inflamação e o metabolismo dos estrogénios.


Importa, no entanto, interpretar esta hipótese com cautela. A microbiota intestinal não explica, por si só, o aparecimento ou a evolução da endometriose. A investigação ainda não permite estabelecer uma relação de causa e efeito. Os próprios autores apresentam a microbiota como um possível elemento dinâmico e modificável que poderá participar em alguns dos mecanismos envolvidos na doença, como explico mais à frente.


Microbiota, sistema imunitário e inflamação


A microbiota intestinal corresponde ao conjunto de microrganismos que vive no intestino e interage continuamente com o nosso organismo. Entre muitas outras funções, participa na digestão de alguns componentes da alimentação, ajuda a manter a integridade da barreira intestinal, produz diferentes substâncias e comunica com o sistema imunitário.


Quando existe um desequilíbrio na composição ou no funcionamento deste ecossistema, falamos em disbiose. Uma das hipóteses analisadas no artigo é a de que estas alterações possam fragilizar a barreira intestinal e aumentar a exposição do organismo a componentes bacterianos capazes de estimular uma resposta mais inflamatória.


Numa doença inflamatória crónica como a endometriose, esta possibilidade torna-se particularmente relevante. A alteração da barreira intestinal e a ativação do sistema imunitário poderão contribuir para um ambiente que favorece a manutenção da inflamação.


Esta influência poderá funcionar nos dois sentidos. A microbiota pode afetar a resposta imunitária e a inflamação, mas o ambiente hormonal, a alimentação, os medicamentos, as alterações do trânsito intestinal, entre outros fatores, também podem modificar a microbiota. Ainda não é possível determinar em que ordem atuam nem o peso de cada um.


Microbiota e metabolismo dos estrogénios


Outro conceito abordado no artigo é o estroboloma, nome dado ao conjunto de genes e funções bacterianas envolvidos no metabolismo dos estrogénios.


Parte dos estrogénios é metabolizada no fígado e enviada para o intestino através da bílis. Algumas bactérias possuem enzimas capazes de reativar uma parte dessas hormonas, permitindo que sejam novamente absorvidas para a circulação.


A microbiota poderá, por isso, participar na forma como o organismo metaboliza e recircula os estrogénios. Esta linha de investigação procura perceber se esta capacidade de reativação estrogénica por parte das bactérias intestinais pode ter um impacto clinicamente relevante, sobretudo na gravidade com que a endometriose se manifesta e evolui.


É tentador antecipar que sim, mas, por enquanto, a microbiota intestinal é apenas uma peça no complexo puzzle que é a origem da endometriose, uma doença de natureza multifatorial.


O que acrescenta este artigo ao que já sabemos?


O artigo discute ainda estratégias dirigidas à modulação da microbiota intestinal, como o uso de probióticos e algumas intervenções alimentares já estudadas na endometriose. É uma área promissora, mas ainda numa fase inicial de investigação, com resultados muito heterogéneos e provenientes sobretudo de estudos pré-clínicos e observacionais. Por enquanto, estes dados não permitem fazer recomendações generalizadas.


Enquanto a investigação avança, continua a fazer sentido aplicar aquilo que já sabemos sobre saúde intestinal. Uma alimentação variada, com diferentes alimentos de origem vegetal e fontes adequadas de fibra, ajuda a alimentar a microbiota, favorecendo bactérias associadas a funções benéficas para a barreira intestinal, o sistema imunitário e a regulação da inflamação. A estratégia deve ser sempre ajustada à tolerância, aos sintomas e às necessidades de cada mulher.


À primeira vista, este artigo pode parecer não trazer grandes mudanças para a prática clínica, uma vez que ainda não permite definir um protocolo específico. Contudo, na minha perspetiva, reforça aquilo que já defendo e aplico todos os dias: o intestino tem obrigatoriamente de fazer parte da avaliação nutricional de todas as mulheres que passam pela minha consulta.


Queixas como azia, refluxo, dor abdominal, obstipação, diarreia, gases ou dor ao evacuar não devem ser ignoradas nem encaradas como uma consequência inevitável da endometriose ou de qualquer outra condição.


Na consulta de nutrição, procuro perceber como estes sintomas variam ao longo do ciclo menstrual e consoante a alimentação, o trânsito intestinal, as rotinas e o estilo de vida. É igualmente importante identificar possíveis fatores agravantes e reconhecer quando é necessário encaminhar para avaliação médica.


A intervenção deve ser individualizada e pode ajudar a melhorar a função intestinal, a tolerância digestiva e a qualidade de vida, sem recorrer automaticamente a dietas restritivas, testes cuja utilidade clínica não está estabelecida ou suplementos sem indicação e suporte científico.


Se vives com endometriose e estas queixas fazem parte do teu dia a dia, não as normalizes. Procura acompanhamento profissional para perceber o que poderá estar a agravá-las e encontrar uma estratégia ajustada às tuas necessidades.

Referências bibliográficas

  1. Nemeti G, Crăciun AE, Măgureanu DC, et al. The Microbiota-Endometriosis Axis: An Immune-Endocrine Integration Model and Emerging Therapeutic Targets. International Journal of Molecular Sciences. 2026;27(11):4883. doi: 10.3390/ijms27114883.
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A Autora

Helena Ferreira

Nutricionista dedicada a ajudar mulheres a reencontrar o equilíbrio hormonal e a viver em harmonia com a sua natureza cíclica.

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