Há uma reação que ainda aparece muito quando se fala de Menopausa com mulheres mais novas: “Isso ainda não é para mim.” Aos 20, aos 30 ou aos 40 anos, entre o trabalho, a família e tudo o que precisamos de resolver, parece uma preocupação distante. E a expressão “conversa de velhas”, mesmo dita a brincar, ajuda a empurrar o assunto para mais tarde.
Neste Dia Mundial da Menopausa, assinalado a 18 de outubro, é esse “mais tarde” que quero trazer para esta reflexão. Até porque a Menopausa tem mais “peso” na vida da mulher do que muitas vezes temos consciência. Uma revisão publicada na revista Science, em outubro de 2026, lembra-nos precisamente que as mulheres podem passar cerca de 40% da vida na pós-Menopausa. Claro que a proporção varia com a idade em que a Menopausa acontece e com os anos que cada mulher vive, mas estamos a falar de décadas.1
Ou seja, uma grande parte da nossa vida adulta pode ser passada na pós-Menopausa.
Já tinhas pensado sobre isto?
São anos em que continuamos a trabalhar, a construir relações, a aprender, a fazer planos e a querer sentirmo-nos bem com o nosso corpo. Naturalmente, era expectável que uma parte tão significativa da vida merecesse mais atenção, mais investigação, melhores cuidados, o que não acontece. É por isto que os autores deste artigo que acabei de citar1 defendem que a Menopausa não pode continuar a ser tratada como uma área de nicho e eu concordo totalmente.
“Ok, certo. Mas se tenho 20, 30 ou 40 anos, porque é que devo querer saber sobre a Menopausa, que tantas vezes associamos apenas aos 50+?”
Talvez este assunto tenha mais a ver contigo do que imaginas. E vou dar-te um exemplo.
Se todos os meses, antes da menstruação, sentes alterações de humor, irritabilidade, ansiedade ou sintomas físicos que interferem com os teus dias, talvez te tenhas habituado a pensar: “É só tensão pré-menstrual ou a TPM, tenho de aguentar, faz parte de ser mulher.” E a vida vai acontecendo, enquanto tentas gerir o desconforto como consegues. Mas aquilo que sentes nesta fase do teu ciclo menstrual merece atenção por si só. E pode também dar-nos informação sobre a forma como o teu corpo responderá às alterações hormonais noutras fases da tua vida.
Foi precisamente esta possibilidade que um estudo publicado em 2023 numa revista científica da American Medical Association procurou explorar. Os investigadores acompanharam mais de 3600 mulheres durante cerca de 20 anos e analisaram a relação entre perturbações pré-menstruais, a idade da Menopausa e a intensidade dos sintomas vasomotores (frequentes na Menopausa, como os afrontamentos ou os suores noturnos).2 As mulheres com perturbações pré-menstruais apresentaram maior frequência de sintomas vasomotores moderados ou intensos na transição para a Menopausa: cerca de 68%, comparativamente a 55% nas mulheres sem estas perturbações. O estudo encontrou também uma associação com maior risco de Menopausa antes dos 45 anos.2
Claro que este estudo, como qualquer outro, tem limitações. É importante perceber que estamos a falar de sintomas pré-menstruais clinicamente relevantes e não de qualquer desconforto ligeiro antes da menstruação. Contudo, a ideia que eu quero trazer para a discussão aqui é que queixas pré-menstruais com impacto significativo na tua vida podem, de certa forma, estar associadas a uma transição para a Menopausa mais sintomática. Na minha ótica, isto é mais uma razão para conheceres o teu ciclo menstrual enquanto o tens durante a tua idade fértil, aprenderes a distinguir o que é frequente e o que é saudável e reconheceres quando precisas de ajuda, parando de normalizar o teu desconforto.
E, se tudo o que escrevi até aqui ainda não te convenceu de que a Menopausa também é um assunto para ti, mesmo que tenhas menos de 50 anos, um estudo bastante recente, publicado a 12 de outubro de 2026 na Nature Medicine, vem reforçar ainda mais a importância de olharmos para os anos que antecedem a Menopausa. Os investigadores analisaram cerca de 300 milhões de resultados de análises laboratoriais para perceber como o corpo muda nos anos antes e depois da última menstruação da vida da mulher.3 O que encontraram sugere que o corpo não espera pela última menstruação para começar a mudar. Algumas alterações hormonais, como a diminuição da hormona antimülleriana (AMH), o aumento da FSH, que participa na estimulação dos folículos nos ovários, e uma tendência de diminuição do estradiol, um dos principais estrogénios, já eram identificáveis mais de uma década antes.3 Isto quer dizer que pode haver mudanças no organismo antes de as sentirmos ou de as associarmos à Menopausa.
E pensa também nos ossos, nos músculos e na saúde cardiovascular e metabólica. As alterações hormonais da Menopausa têm repercussões em todas estas áreas. A saúde que vais construindo enquanto és mais jovem, através da alimentação, da atividade física e dos cuidados que recebes, também poderá influenciar a forma como o teu corpo responderá a esta transição e a tua qualidade de vida nos anos seguintes.1,4
Então, o que é que eu quero que retenhas de tudo isto?
Primeiro, que estar informada te dá ferramentas para cuidares de ti e para participares nas decisões sobre a tua saúde, hoje e sempre. Aliás, é precisamente isto que defendem os especialistas que escrevem sobre os cuidados na Menopausa: dar mais informação e promover a autonomia das mulheres.5 Ainda assim, o discurso continua muitas vezes dirigido a quem tem 50 ou 60 anos e já está a viver esta transição ou já passou por ela.
Na minha perspetiva, essa autonomia precisa de ser construída antes de lá chegarmos. Não aparece de um dia para o outro. Vai crescendo à medida que conhecemos o nosso corpo, compreendemos o que sentimos e aprendemos a fazer perguntas. Por isso, precisamos de falar de Menopausa também com mulheres de 20, 30 e 40 anos, para que tenham informação a tempo de a usarem nos seus cuidados.
Qualquer mulher e, na verdade, qualquer pessoa deveria saber o que é a Menopausa e compreender a importância que pode ter na vida de quem a atravessa. Se podemos passar cerca de 40% da nossa vida na pós-Menopausa, vale a pena conhecer esse percurso e perceber que os cuidados que temos enquanto somos mais jovens também podem influenciar a forma como vivemos essa fase.1
É aqui que eu volto ao exemplo da TPM. Os sintomas intensos e persistentes na fase pré-menstrual podem afetar o teu dia-a-dia hoje, seja pelo cansaço, pelas alterações de humor, pela dificuldade de concentração ou pela dor. Mas, como vimos, também podem estar associados a uma maior dificuldade em lidar com as variações hormonais numa fase mais avançada da vida, como a transição para a Menopausa.
Se deres atenção a estes sinais agora, enquanto tens ciclo menstrual, poderás não só melhorar a tua qualidade de vida neste momento, mas também cuidar da qualidade de vida da mulher que vais ser e que ainda tem tanto para viver.
Segundo, não só podes, como também deves ter um papel ativo nos teus cuidados de saúde. E há uma forma de começares a construir essa autonomia agora: através da melhoria da tua saúde menstrual. Isto é, observares o teu ciclo, registares o que vai acontecendo ao longo do tempo e perceberes os teus padrões, por exemplo, como é a tua menstruação, que sintomas e sensações surgem e em que momentos do ciclo acontecem. Este registo pode ajudar-te a perceber o que se repete, o que mudou e o que merece ser conversado com um profissional de saúde o mais breve possível.
Sei também, porque passei pelo mesmo, que começar a registar o ciclo menstrual nem sempre é fácil. Pode ser trabalhoso, levar tempo e trazer alguma frustração. No início, podes não saber bem o que observar, o que vale a pena anotar ou como encaixar este novo hábito num dia tão preenchido. Tenho ajudado várias mulheres a dar esses primeiros passos e foi também dessa experiência que nasceu o Planner Sincroniza-te. Nele, podes registar o teu ciclo menstrual no mesmo lugar onde organizas os teus dias, em formato de agenda, para que esta atenção ao teu corpo encontre espaço na tua rotina diária. Se sentes que te pode ajudar, podes clicar aqui e conhecer melhor a edição do Planner 2027.
Termino com um apelo, reconhecendo que ainda há muitas lacunas nesta área do conhecimento e na própria preparação dos profissionais de saúde. A investigação está finalmente a avançar, mas, para acompanhar este progresso e o esforço de quem procura manter-se atualizado, precisamos também do interesse e da participação de nós, mulheres. Precisamos de mais abertura para querer saber e para quebrar a resistência a falar de Menopausa, sobretudo com mulheres mais jovens. Se fazes parte deste grupo e leste até aqui, já estás a dar um contributo importante para esta mudança.
A minha esperança agora é que aquilo que escrevi te tenha ajudado a olhar de outra forma para as mudanças que vão acontecendo no teu corpo com a idade, acolhendo-as como parte natural da vida. A Menopausa não tem de ser o fim da vida de uma mulher, é simplesmente uma nova fase em que há espaço para te redescobrires, fazeres planos e continuares a cuidar de ti. Talvez o próximo passo seja partilhares o que leste aqui com todas as mulheres da tua vida. Acredito que assim conseguimos fazer a informação chegar a cada vez mais pessoas e fortalecer a entreajuda entre mulheres de diferentes gerações.
Referências bibliográficas
- Gravelsins LL, Perović M, Wood Alexander M, et al. Reframing menopause and menopause hormone therapy as opportunities for healthy aging. Science. 2026;394(6819):60–68. doi: 10.1126/science.aeg5004.
- Yang Y, Valdimarsdóttir UA, Manson JE, et al. Premenstrual disorders, timing of menopause, and severity of vasomotor symptoms. JAMA Netw Open. 2023;6(9):e2334545. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2023.34545.
- Pridham G, Hayut Y, Lavi-Shoseyov N, et al. Population-scale reconstruction of menopause dynamics reveals a physiological cliff at the final menstrual period. Nat Med. 2026;32:3823–3831. doi: 10.1038/s41591-026-04614-0.
- Lumsden MA, Dekkers OM, Faubion SS, et al. European Society of Endocrinology clinical practice guideline for evaluation and management of menopause and the perimenopause. Eur J Endocrinol. 2025;193(4):G49–G81. doi: 10.1093/ejendo/lvaf206.
- Hickey M, LaCroix AZ, Doust J, et al. An empowerment model for managing menopause. Lancet. 2024;403(10430):947–957. doi: 10.1016/S0140-6736(23)02799-X.





